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Preço e margem: como recuperar a rentabilidade que se perdeu

Por Adilson Perardt · SOMA Consultoria Empresarial · Setembro de 2026

Poucas decisões custam tanto quanto um desconto dado no fim da conversa. Ele parece pequeno, resolve a venda do dia e não aparece em relatório nenhum. Mas o desconto não sai do preço: sai do lucro — e quando a margem já é apertada, ele sai quase inteiro.

O desconto é o vazamento mais caro e o menos percebido

Faça a conta com números redondos. Um produto vendido a R$ 100, com custo de R$ 80, deixa R$ 20 de lucro — margem de 20%. Agora dê 10% de desconto: o preço cai para R$ 90, o custo continua R$ 80 e o lucro vira R$ 10. Um desconto de 10% no preço derrubou o lucro em 50%.

A consequência prática é dura: para ganhar o mesmo dinheiro que ganhava antes, essa empresa precisa vender o dobro — com o dobro de entrega, de frete, de cobrança e de risco. É por isso que existe empresa faturando recorde e com o resultado encolhendo. Quanto menor a margem, mais violento o efeito. Com margem de 10%, o mesmo desconto de 10% zera o lucro da venda.

Margem de contribuição em linguagem de dono

Margem de contribuição é o que sobra de cada venda para pagar a estrutura da empresa. Preço menos os custos que só existem porque aquela venda aconteceu: matéria-prima, mercadoria, comissão, imposto sobre a venda, frete. O que resta não é lucro ainda — é a contribuição daquela venda para o aluguel, a folha, o sistema, você.

Exemplo: preço R$ 100, custos variáveis R$ 60. Margem de contribuição de R$ 40, ou 40%. Se a estrutura fixa custa R$ 200 mil por mês, a empresa precisa vender R$ 500 mil só para empatar (R$ 200 mil dividido por 0,40). Acima disso, 40 centavos de cada real viram lucro. Abaixo, cada real de venda ainda deixa buraco. Sem esse número por produto, por serviço e por cliente, preço vira palpite.

Custo ou valor: por onde você forma o preço

Precificar por custo é somar o gasto e aplicar um multiplicador. É simples, protege contra prejuízo — e ignora o cliente. O teto do seu preço passa a ser a sua ineficiência.

Precificar por valor entregue parte de outra pergunta: quanto vale, para o cliente, o problema que você resolve? Prazo menor, risco menor, retrabalho que ele não terá, dor de cabeça que ele evita. O custo continua servindo de piso — nenhum preço abaixo dele se sustenta —, mas quem define o teto é o valor percebido. Serviços técnicos, projetos e soluções sob medida quase sempre são vendidos abaixo do que valem porque o dono só olha para a planilha de custo.

O mix que engana

Existe um item que sai todo dia, todo mundo elogia e ninguém questiona. Ele gira. Só que girar não é pagar a estrutura. Suponha R$ 1 milhão de faturamento: R$ 700 mil no produto A, com margem de contribuição de 15% (R$ 105 mil), e R$ 300 mil no produto B, com 45% (R$ 135 mil). Contribuição total: R$ 240 mil. Com estrutura de R$ 200 mil, sobram R$ 40 mil.

Agora mova R$ 100 mil de venda do A para o B, sem faturar um real a mais: A rende R$ 90 mil, B rende R$ 180 mil, total R$ 270 mil — e o lucro salta de R$ 40 mil para R$ 70 mil. Mesmo faturamento, 75% mais lucro, só porque o mix mudou. É a mesma lógica do lucro que não vira caixa: o problema não está no volume, está na composição.

Como subir preço sem perder cliente

A conta do aumento é tão desequilibrada quanto a do desconto — só que a seu favor. Voltando ao produto de R$ 100 com custo de R$ 80: um reajuste de 5% leva o preço a R$ 105 e o lucro unitário de R$ 20 para R$ 25. Você pode perder até 20% do volume e ainda ficar com o mesmo lucro em reais. Na prática, a perda real costuma ser muito menor.

  • Segmente. Reajuste não precisa ser linear. Comece pelos clientes de menor margem e maior custo de atendimento;
  • Monte a escada de valor. Ofereça uma versão essencial, uma completa e uma premium. O cliente escolhe o degrau — e para de comparar só preço;
  • Comunique com antecedência e motivo. Data definida, razão objetiva, o que ele ganha. Reajuste avisado é negociação; reajuste na nota fiscal é conflito.

A rotina de revisar preço

Quem não revisa preço reduz margem por inércia. O custo sobe sozinho — insumo, salário, energia, imposto — e o preço fica parado por medo. Se o custo sobe 8% e o preço não se mexe, aquele lucro de R$ 20 cai para R$ 13,60: 32% a menos, sem que ninguém tenha decidido nada.

A correção é uma rotina, não uma campanha: margem de contribuição por item revista todo mês, tabela e política de desconto revistas por trimestre, alçada clara de quem pode dar quanto. São as alavancas Preço e Receita das 7 Alavancas do Lucro e do Caixa — as duas que agem mais rápido, porque não dependem de vender mais nem de cortar ninguém. Dependem de decidir com número na mão.

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